Biografia
Voyage de poche, flashback : Bena Lobo
A história de Bena Lobo é daquelas do tipo que abordam um problema universalmente conhecido no mundo das artes (mas não somente) : ser o descendente de uma linhagem ilustre. E daí a dificuldade de se forjar um « nome próprio ». Mas para Bena (ou Bernardo) ; o destino colocou o desafio muito acima do comum. Filho de Edu Lobo, um dos compositores mais importantes da moderna música popular basileira (e quiçá do mundo !) e filho caçula de Fernando Lobo (1915-1996), outro célebre compositor e escritor, convenhamos que se trata e uma herança pesada de se carregar. E como se isso não fosse o bastante, sua mamãe não é ninguém menos que Wanda Sá, uma das protagonistas dos primeiros momentos da Bossa Nova.
A primeira vez em que tomei conhecimento da existência de Bena, foi através das páginas de « Caras », famosa revista que nos conta historinhas de todo tipo acerca de personalidades do jet set brasileiro. Podia-se vê-lo tocando numa festa organizada por uma « celebridade » que me era desconhecida. Não havia então nada naquilo que me interessasse a princípio. Um certo tempo depois, tendo saído seu segundo álbum, « Sábado », em cuja capa ele aparecia como um playboy a sorrir com certo escárnio, sob óculos escuros… Aí é que eu o achei ainda mais suspeito ! Mas as presenças de Lenine, Seu Jorge, Milton Nascimento, Pedro Luis e de tantos outros convidados de prestígio citados nos créditos da caixa, me rendi à curiosidade. No que fiz muito bem, uma vez que ao ouvir esse disco, eu fiquei acima de tudo impressionado com a qualidade das composições de Bena, divididas entre o samba funk e as melodias bem influenciadas pelas harmonias do Nordeste. E isso por causa, provavelmente, do registro em seu DNA das suas origens pernambucanas…
E mesmo apesar disso, a idéia de que Bena é filho de quem é, já tinha então desaparecido de meu espírito.
E dessa forma, sendo não somente « filho de », mas ao mesmo tempo ser amigo fiel de boa parte do pessoal da MPB, antiga e nova gerações se confundindo, somam-se as razões para que a imprensa especializada lhe torça o nariz.
Quando eu o reencontrei, em 2008, eu me vi novamente frente a um cara simpático, receptivo, e de uma grande simplicidade (eu diria mesmo humildade). Eu percebi um artista que não deveria dedicar sua energia somente à composição, mas também a se colocar como um artista por inteiro, independente de sua prestigiada « entourage ». Um tempo depois, ele gravou, em fins de 2006, no Teatro Rival (RJ), o dvd homônimo ao disco, « Sábado ao vivo », que só veio a ser lançado em dezembro de 2008. Seria o caso de se considerar, em relação ao artista, que esse trabalho é uma produção que já faz parte de uma memória longíncua do mesmo.
Aproveitando essa « viagem de bolso », nós resolvemos nos rever, a fim de conversar sobre seus projetos… E eu tive, por acaso, um tempo para dar uma olhada no dvd em questão, na véspera. Assim como para o álbum em estúdio – a meu ver – ele cometeu o erro de não se afirmar por si só, convidando para dividir a cena uma plêiade de nomes famosos. O super baixista Arthur Maia, João Donato, Pedro Luis, Edu Lobo, sem falar – e essa, sim, é uma boa idéia : Carlos Malta e Pife Muderno. Se, indiscutivelmente, a apresentação de suas próprias composições constitui o ponto forte do show, ele deve se questionar se as homenagens – sinceras – prestadas a seus mestres como Chico Buarque, Caetano Veloso, Tom Jobim, João Donato, e até mesmo a seu próprio pai, chegaram cedo demais à sua carreira. Outro erro, sem dúvida – e esse ele mesmo me confessou antes que eu mencionasse : o excesso de closes sobre o público, constituído em sua maor parte por amigos e celebridades vindas de todas as origens. Fica difícil, depois disso, de se obter uma certa credibilidade por parte da crítica. Por instantes, eu senti o rapaz um pouco desapontado frente a essa indiferença a ele dispensada, principalmente por parte da imprensa carioca.
Mas Bena Lobo não resolveu ficar de braços cruzados. Nem tampouco isolar-se ou ignorar suas amizades verdadeiras, tão célebres por elas mesmas… Mas sem dúvida deve ousar afirmar-se mais por si só como artista. Ele possui, a meu ver, o talento necessário para tanto.
O compositor já encetou um projeto que poderá enfim trazer-lhe um certo reconhecimento : aquele a ser lançado nesse ano de 2009 ; um álbum em colaboração com Paulo César Pinheiro, um dos mais importantes letristas do samba. Se para os arranjos ou para a produção desse disco ele puder contar também com um arranjador do calibre de um Dori Caymmi (é uma idéia já em pauta, mas ainda não concluída), assim será possível dar à luz um projeto bem legal.
No aguardo, Bena trabalha na repetição de uma série de shows a estrear proximamente com seu amigo e colega Daniel Gonzaga, esse também um artista muito talentoso, e o mais jovem egresso de uma filiação de prestígio : Gonzaguinha (1945-1991) e Luiz Gonzagua (1912-1989).
Quanto a mim, aguardo sobretudo o projeto que o afirmará como um artista autônomo que , afinal, ele já é. Só lhe falta prova-lo para uma certa crítica.
Publicado Originalmente em: http://www.daniel-achedjian.blogspot.com







